História do automobilismo no Brasil – O início

O automóvel

Não se pode falar em automobilismo no Brasil sem falar em como o automóvel chegou aqui. Em termos históricos, os automóveis chegaram ao Brasil, no período conhecido como “Belle Époque” (1871 a 1914). Os “Thomson Road Steamers” foram os primeiros veículos autopropulsados a rodarem com indiscutível sucesso em vias públicas urbanas.

No Brasil, o empresário e jurista baiano Francisco Antonio Pereira Rocha, promoveu a estreia de um desses em Salvador, fato que foi registrado no “Diário de Notícias” do Rio de Janeiro, na edição de 4 de maio de 1871.
thomson-road-steamer

Dois desses veículos funcionaram também no Ceará, como informou o cônsul dos Estados Unidos, em Pernambuco, em relatório datado de 28 de outubro de 1871, publicado no “Commercial Relations of the United States with Foreign Countries”, de 1872.

Existem também algumas notícias de licenças concedidas para o emprego desses mesmos veículos no Rio de Janeiro e no Rio Grande do Sul.

Em 1891, Santos Dumont, importou para o Brasil (São Paulo), o primeiro automóvel com motor à explosão, um “Peugeot Tipo 3”, com a intenção de estudar seu motor e não para circular com ele. O motor era um “Daimler” de 2 cilindros em “V” e 3,5 CV.

Residencia_de_Santos_Dumont
Em 1900, um “Decauville”, foi o primeiro carro a transitar pelas ruas do Rio de Janeiro. Tinha um motor de 2 cilindros e um volante que parecia um guidão de bicicleta. O proprietário era Armando Guerra Duval, um estudante de engenharia.

Ainda em 1900, José Henrique Lanat, um industrial francês radicado em Salvador, recebeu um “Clément”. Existe um documento que confirma a existência de um segundo carro na cidade de São Paulo, em 1901, acreditando-se que seu possuidor tenha sido o Conde Álvares Penteado.

As corridas

Em 16 de novembro de 1901 aconteceu a primeira corrida “não oficial” de carros da América do Sul, no hipódromo de Belgrano, a poucos quilômetros do centro de Buenos Aires na Argentina. Esta corrida, de caráter beneficente, contou com sete participantes, tendo como vencedor o Sr. Juan Cassoulet.

Em 1902 aconteceu uma corrida, também “não oficial” de carros, no Hipódromo Paulistano da Mooca, disputada por três intrépidos pioneiros, sendo vencedor o Sr. José Paulinho Nogueira Filho.

O_Estado_de_S_Paulo-15-12-1902

Em 1904, haviam apenas 6 automóveis em São Paulo, cujos os proprietários eram milionários, e como não sabiam dirigir, o carro geralmente vinha acompanhado de um motorista estrangeiro que podia ser francês ou inglês.

A segunda corrida  “não oficial” do Brasil, foi realizada no Rio de Janeiro, em 1905. Entre os pilotos estavam: Willy Borghoff e Primo Floresi. Essa corrida foi organizada, por sugestão de Pereira Passos, prefeito da cidade do Rio de Janeiro na época, para comemorar as obras de remodelação do Largo do Machado.

No Maranhão, Joaquim Moreira Alves do Santos, conhecido como “Nhozinho Santos”, regressando de Liverpool onde se formou como técnico têxtil em novembro de 1905, trouxe na bagagem um automóvel inglês “Speedwell”, modelo “Phaeton”, de quatro lugares, motor “De Dion Bouton”, monocilíndrico, a gasolina.
Speedwell_Phaeton
A primeira corrida oficial da América do Sul, foi realizada em Buenos Aires, organizada pelo “Automóvil Club Argentino” em 9 de dezembro de 1906, com largada no bairro Recoleta e chegada no hotel El Tigre, contando com cerca de 15 participantes. O vencedor foi Miguel A. Marín com um Darracq de 20HP, o segundo foi Francisco Radé com um Dietrich de 24-32 HP.

O “Automóvel Club do Brasil”, foi fundado em 27 de setembro de 1907, mas somente um ano depois o governo do Rio de Janeiro (capital federal na época), reconheceu e oficializou a entidade, formada pelos seis primeiros proprietários de carros no país até então: Santos Dumont, José do Patrocínio, Álvaro Fernandes da Costa Braga, Aarão Reis, Olavo Bilac e Fernando Guerra Durval, com a proposta de desenvolver entre os brasileiros o gosto pelo automobilismo, a importação de carros, a formação de motoristas, a abertura de estradas, entre outras atividades correlatas.

Automovel_Club_do_Brasil

Em 1907, o automóvel já era destaque do carnaval carioca, surgindo nos anos seguintes o tradicional “corso”, com guerras de serpentina, confete e jatos de lança-perfume entre os foliões que desfilavam de carro pelas ruas centrais.

carnaval_corso_1907

Após a sua oficialização, o “Automóvel Club do Brasil”, passou a organizar encontros de automóveis na vista chinesa, na Floresta da Tijuca (Rio de Janeiro).

Encontro_Vista_Chinesa

A primeira

A primeira corrida de automóveis oficial no Brasil, organizada pelo “Automóvel Club de São Paulo”, recém-criado, aconteceu em 26 de julho de 1908, num percurso de 70 quilômetros, percorrendo a estrada para Itapecerica da Serra, na verdade a saída era no Parque Antártica (hoje Allianz Parque), na av. Antártica (hoje avenida Francisco Matarazzo), rua Tabor (hoje Cardoso de Almeida) e av. Municipal (hoje Teodoro Sampaio). Na Vila Pinheiros (hoje bairro de Pinheiros), passavam em frente ao Mercado dos Caipiras (hoje Mercado de Pinheiros), atravessavam a ponte metálica sobre o Rio Pinheiros, construída em 1865, e pegavam a estrada de M’Boi Mirim (Embu), voltam por Itapecerica da Serra e Santo Amaro, sobem o Caminho de Santo Amaro (av. Brigadeiro Luís Antônio) até a av. Paulista – retornando ao Parque Antártica.

O formato da corrida se assemelhava mais a um rally de velocidade: cada competidor largava de 5 em 5 minutos, alguns de 7 em 7 por causa da poeira levantada, e os vencedores eram aqueles que completavam o percurso no menor tempo. Dos dezenove competidores inscritos, dezesseis compareceram. A largada foi dada as 12:55, pelo presidente do Automóvel Club de São Paulo – Antonio da Silva Prado ao piloto Jorge Haentjens com seu Lorraine-Dietrich. Este era o carro mais potente do Brasil, com 60hp, e fez a prova sem concorrentes em sua categoria, fazendo um “walk-over” em 1:31′:55″ com média de velocidade de 48km/h.

1a_corrida_publico

Havia uma grande preocupação com  segurança, esta era a maior preocupação de Washington Luís, secretário de Justiça de São Paulo na época. Por conta disso, o transito foi interditado das 13 as 18 horas daquele dia, em todo o “Circuito de Itapecerica”, 450 policiais estavam distribuídos ao longo do circuito, para garantir a segurança dos espectadores: a cada passagem de um competidor, tocava-se uma corneta, para avisar a população. Esses policiais, tinham a seu dispor 3 bandeiras para serem agitadas em caso de emergência: amarela, vermelha e verde, com significados similares às que existem hoje em dia. Era o mesmo sistema de bandeiras, que havia sido utilizado pela primeira vez, numa competição italiana, em 1906, a “Targa Florio”.

1a_corrida_fotograma-00

Esse evento não registrou qualquer acidente de maior monta, apenas alguns incidentes: Luís Prado no seu Sizaire-Naudin derrapou nos trilhos de bonde, na Avenida Antártica e chocou-se contra a guia, entortando a roda; o famoso Conde Lesdain, teve uma roda do Harold quebrada no portão do Parque Antártica, ferindo o queixo; José Prates “tombou” o seu carro no final da Rua Cerqueira César (Teodoro Sampaio), arranhando o nariz, mas a população o ajudou a desvirar o carro e ele terminou a prova sem outros problemas; Os cariocas Luís Moraes e Frederico Otto têm os pneus furados de seus carros, mas terminam a prova. Foram apenas duas desistências: Ricardo Vilela, por defeito na bomba de óleo do seu Brown e Fulvio Bassi, com quebra da engrenagem e um pneu furado do seu Clément.

1a_corrida_silvioap

Contudo, um  desses incidentes, mudou o resultado da prova da categoria “D”: Em Santo Amaro, o carioca Gastão de Almeida que levava uma vantagem de 5 minutos sobre o segundo colocado, o paulista Sylvio Penteado, teve um problema mecânico que lhe tirou o primeiro lugar: o cárter do seu carro, um Dietrich-Lorraine, literalmente caiu, a 6 quilômetros da chegada. Daí a vitória do empresário e Conde Sylvio Álvares Penteado na categoria principal (40HP), depois de 1h30min05s, pilotando um Fiat de 40 HP, tendo sido aclamado por uma multidão de dez a quinze mil pessoas. O carioca Gastão de Almeida ficou na segunda colocação, a 27 minutos e 40 segundos do vencedor, e Osvaldo Sampaio chegou em terceiro, com o tempo de 2h41min54s.

1a_corrida_fotograma-03

Eis a classificação final dos pilotos em suas categorias:

Categorias: “A” – Motocicletas; “B” – Voiturette; “C” – 20-30 CV; “D” – 40 CV; “E” – mais de 45 CV.

COL PILOTO UF CARRO CC CAT TEMPO
Sylvio Penteado SP Fiat 28/40 HP 7.363 D 1h30m05s1
Jorge Haentjaens RJ Lorraine Dietrich 60 HP 12.050 E 1h31m55s0
Jordano Laport RJ Renault 20/30 HP 4.400 C 1h45m04s0
Paulo Prado SP Berliet 22 HP 3.768 C 1h51m28s0
Eduardo Nielsen SP Moto Griffon 500 A 1h54m48s0
Gastão de Almeida RJ Lorraine Dietrich 35 HP 6.900 D 1h57m45s0
Prado Júnior SP Delage 1.059 B 2h00m48s0
Ferrucio Olivieri SP Lion Peugeot 1.045 B 2h05m15s0
Alípio Borba SP Diatto Clement 20/25 HP 4.086 C 2h05m53s0
10º Frederico Otto SP Diatto Clemente 20/25 HP 5.200 C 2h18m55s0
11º José Prates SP Lion Peugeot 1.045 B 2h30m33s0
12º Osvaldo Sampaio SP Fiat 28/40 HP 7.363 D 2h41m54s0
13º Procópio Ferraz SP Moto Griffon 500 A 2h42m00s0
14º Luiz Moraes RJ Clement Bayard 20/30 HP 4.086 C 2h49m23s0
AB Fúlvio Bassi SP Clement Bayard 20/30 HP 4.086 C
AB Ricardo Vilela SP Brown 40 HP 3.800 D

 

1a_corrida_Silvio_no_Parque_Antartica

Sobre esta primeira corrida oficial, o jornal “O Estado de S. Paulo”, na página 3 de sua edição de 27 de julho de 1908, registra na seção de “SPORT”, a seguinte manchete:

Circuito de Itapecerica – A Grande Corrida.

E prossegue o texto, por duas das oito colunas da página, relatando a primeira corrida oficial de automóveis realizada no Brasil:
Foi um successo, e successo em toda a linha, a grande corrida de automoveis realisada hontem, sob a direcção do Automovel Club de S. Paulo … Ao ouvir o primeiro automovel, ás 12,55 da tarde, annuviou-se-nos o coração, ficamos apprehensivos, como que a interrogar o futuro”.

A segunda

A segunda corrida oficial no Brasil, foi organizada pelo “Automóvel Club do Brasil”, e ocorreu em 19 de setembro de 1909, no Circuito de São Gonçalo (RJ).

Inicialmente, a prova, seria realizada no Alto da Boa Vista, no Rio de Janeiro, local onde aconteceram os primeiros encontros de automóveis do Brasil, mas o então prefeito, Souza Aguiar com apoio da Câmara Legislativa, foi contra sua realização na então Capital Federal, por achar que representava uma “ameaça à população”, e conseguiu proibir a realização da mesma.

Em vista da proibição, e contando com o apoio do presidente do Estado do Rio, Dr. Alfredo Backer e seus auxiliares, do prefeito de São Gonçalo, coronel Joaquim Serrado e do capitalista e industrial, Visconde de Moraes, o “Automóvel Club do Brasil” transferiu a prova para São Gonçalo.

2a_corrida_ensaio_omalho_1909_pg27

O evento teve grande repercussão nacional, e mesmo internacional, já que um repórter francês cobrira o evento para o jornal L‘Auto. Importantes revistas (como O Malho, Careta, Fon Fon) e o “Jornal do Commercio” noticiaram fartamente a corrida.O percurso, partia de Neves, para Alcântara, São Gonçalo (centro), Pacheco, Sacramento e Engenho Novo; chegando à “Fazenda do Engenho Novo”, os automóveis das categorias B, C e D, retornariam por onde foram, fazendo um percurso reduzido de 48 km; os automóveis das categorias E e F, prosseguiriam por Monte Formoso, Monjolos, Laranjal,  e novamente Alcântara, São Gonçalo (centro) e Neves, fazendo o percurso total de 72 km.

2a_corrida_circuito-01

O formato da corrida, assim como a anterior, se assemelhava mais a um rally: cada competidor largava de 4 em 4 minutos, alguns de 6 em 6 por causa da poeira levantada. Dos dezesseis competidores inscritos, onze compareceram. A largada foi dada as 13:00.

Categorias: “A” – Motocicletas; “B” – Até 15 HP; “C” – Até 20 HP; “D” – Até 30 HP; “E” – Até 45 HP; “F” – Acima  de 45 HP.

Sobre esse evento, temos uma documentação mais extensa. O anúncio dessa segunda corrida, foi feito dessa forma nos principais jornais: “O Automóvel Club do Brasil avisa ao público (da Capital) que quiser ir as corridas a realizar-se em São Gonçalo, domingo 19 de setembro, que construiu arquibancadas nas Neves, mas com número limitado de lugares devido à dificuldade do local. O trajeto far-se-á desta capital até às Neves pelas Barcas Ferry, e pelos bonds elétricos de Nictheroy até quase ao local das arquibancadas, ponto de partida e de chegada dos automóveis”.

2a_corrida_Pres_Alfredo_Backer_e_familia

“O presidente do Estado do Rio, Dr. Alfredo Backer e S. Exma. família na Archibancada”

Colocação final – Percurso 72 Km

1º – Gastão Ferreira de Almeida (RJ), Berliet 60 HP (F), 1h04m

2a_corrida_Gastao_Ferreira_de_Almeida

2º – João Borges Júnior (RJ), Fiat 75 HP (F), 1h07m

2a_corrida_Joao_Borges_Junior

3º – Raul Justiniano das Chagas (RJ), Fiat 40 HP (E), 2h38m

2a_corrida_Raul_Justiniano_das_Chagas

4º – C. Bosisio (SP), Fiat 40 HP (E), 2h42m

2a_corrida_C_Bosisio

5º – Francisco Cunha Bueno (SP), Fiat 50 HP (F), pneu furado
Sem imagem – Carro Nº 3

6º – Jorge Haentjaens (RJ), Lorraine-Dietrich 80 HP (F), carro avariado

2a_corrida_Jorge_Haentjaens

7º – F. Serrador (RJ), Diato-Clement 30 HP (E), carro incendiou
Sem imagem – Carro Nº 5

8º – Charles Meyer (RJ), Benz 40 HP (E), carro avariado
Sem imagem – Carro Nº 7

Colocação final – Percurso 48 Km

1º – José D’Orey (RJ), Berliet 22 HP (D), 48m

2a_corrida_Jose_D_Orey

2º – Raul Berroguin (RJ), Renault 14 HP (C), 58m

2a_corrida_Raul_Berroguin

3º – Honório Berroguin (RJ), FN 14 HP (C), 1h01m

2a_corrida_Honorio_Berroguin

Não compareceram para a prova, os seguintes competidores: Oswaldo Sampaio (SP); G. Berbisco (SP); F. de Oliveira (RJ); Fabio Prado (RJ) e Joaquim Pontes.

Os incidentes:

Esta segunda corrida oficial, também transcorreu sem nenhum acidente, mas alguns incidentes curiosos aconteceram e foram assim descritos pelo jornal Correio da Manhã:

Não se passara ainda meio hora, e uma notícia má circulou: havia incêndio num ponto distante da estrada. O motor de um dos carros explodira. Diversas pessoas, em automóveis, partiriam em direção a esse ponto, que não se sabia bem onde era, na ânsia de conhecerem os detalhes do acidente e socorrer os feridos, em caso de os haver.
A explosão fora na máquina Diato-Clément do Sr. F. Serrador. Esse concorrente e o seu mecânico tiveram a calma precisa para se deterem imediatamente na marcha vertiginosa que levavam, saltando ilesos do carro. Além do grande prejuízo matéria, nada havia a lamentar.
Um outro acidente, que poderia ter graves conseqüências, aconteceu com o Lorraine-Dietrich, conduzido pelo Sr. Jorge Haentjens. Os assentos haviam-se quebrado bem como a caixa da gasolina, deu alento no precioso elemento em combustão. O Sr. Haentjens e o seu mecânico, fazendo prodígios de acrobacia, seguravam-se, firmemente, parando o carro sem serem dele cuspidos.
O Sr. Cunha Bueno, na precipitação da corrida, matou um porco que atravessava a estrada, acarretando-lhe esse acidente um grande atraso, por se terem arrebentado três pneumáticos. O Sr. Bueno ficou levemente ferido na mão, e pôde ainda conduzir a sua máquina na volta
O terceiro desastre acontecera ao carro Benz do Sr. Carlos Meyer. Uma parada brusca, a que fora obrigado por desarranjo também nos pneumáticos e pelo receio de ir sobre um concorrente, fez com que o mecânico fosse atirado à distância, machucando-se em diversas partes do corpo, principalmente nos braços e pernas. Esse mecânico foi transportado para a sua residência, nesta capital, não inspirando, felizmente, cuidados o seu estado”.

2a_corrida_carros_acidentados

Outras imagens representando alguns dos carros envolvidos na competição:

ParticipantesSaoGoncalo

Um vídeo sobre o evento pode ser encontrado aqui.

O vencedor da prova no percurso mais longo, foi Gastão de Almeida, pilotando um Berliet AK 14 de 60HP, especialmente preparado, tendo seu peso aliviado pela remoção das peças e partes desnecessárias, além da preparação do motor e reforços mecânicos feitos pelo “machinista” Carlos Nunes Ferreira.

Vejam o carro vencedor:
Berliet_AK_14

Depois da corrida, o jornal “Correio da Manhã”, registra a seguinte manchete:

Gastão de Almeida, “recordman” de velocidade, em machina Berliet , 60 H. P.

O texto prossegue, relatando o desenrolar da segunda corrida oficial de automóveis realizada no Brasil, e em seu último trecho, a chegada:
Poucos minutos depois das 2 horas, ouviu-se ao longe, das arquibancadas, o toque de sentido! Aproximava-se o primeiro concorrente em demanda do posto de chegada. A trepidação de sua máquina ouvia-se distintamente, e, em poucos segundos, ela passou debaixo da faixa branca: era a máquina Fiat, do Dr. Borges Junior; fizera o percurso em uma hora e sete minutos. Não se havia ainda extinguido a impressão desse momento, ansiosamente esperado e, no meio da estrada, apareceu, distinguindo-se perfeitamente, pela sua cor amarelada, o carro do Sr. Gastão de Almeida, muito pálido, o rosto coberto da poeira do caminho, mal podia sorrir à multidão. Desceu rapidamente do carro, fugindo à curiosidade popular, e pediu água. Um ligeiro momento de descanso e ele perguntou jovialmente:
– O meu tempo? Não sabem o meu tempo?
Alguém informou:
– Uma hora e quatro minutos.
Gastão batera o Dr, Borges Júnior por três minutos, apenas. Restava saber o resultado dos outros corredores. Os momentos passaram ansiosamente e, não aparecendo na estrada mais carro algum, já não havia dúvida sobre a vitória, e o simpático rapaz foi pela grande massa proclamado o vencedor da prova de velocidade.
Chegaram depois: Raul Chagas, Fiat 40 H. P., que fez o percurso em 2 horas e trinta e oito minutos, ganhando o primeiro lugar dos corredores da sua categoria, e C. Bozisio, em segundo, por uma diferença de quatro minutos apenas.
José d’Orey, concorrente único da primeira categoria da segunda turma, saiu às 3:19 atingindo a faixa branca às 4, depois de fazer o percurso de quarenta e oito quilômetros.
O premio da segunda categoria foi ganho pelo Dr. Raul Berroguin, máquina Renault 14 H. P., num tempo de 58 minutos, batendo seu concorrente Honório Berroguin, por uma diferença de 2 minutos.Honório Berroguin trouxe dois pneumáticos furados.
Todos esses tempos foram tomados pelo Correio da Manhã. Não são do Automóvel Club e, portanto, não podem ter caráter oficial. Salvo pequenas diferenças, que não deixam de haver, com certeza, eles são exatos e foram anotados com o máximo escrúpulo.
O Sr. Lucien Lousson representou na grande festa de ontem a redação do jornal L’Auto, de Paris, da qual faz parte, e a Federação Internacional dos Sports, tendo ontem mesmo transmitido pelo telegrafo àquele jornal o resultado da corrida”.

2a_corrida_Chegada

A sequência

A partir de 1910, a Ford começou a abrir brechas no mercado brasileiro de automóveis, que até então, era predominantemente europeu.

Em 1911 surge a primeira publicação especializada brasileira: a “Revista de Automóveis” e na primeira edição o redator Bastos Tigres reivindica uma série de medidas por parte das autoridades quanto a fiscalização do trânsito do Rio de Janeiro.

Na segunda página de seu primeiro número, deixava bem claro seu objetivo: “É a primeira e unica publicação brazileira no genero. Redigida por especialistas neste assumpto, ella será de inestimavel valor informativo para os automobilistas e o melhor meio de propaganda para os fabricantes e agentes. Ler a Revista de Automóveis é conhecer o movimento mensal do automobilismo”.

RevistadeAutomoveis

Em 1913, ocorre a primeira corrida de automóveis no Uruguai, e desde então, se estabeleceu um bom nível de convivência e troca de informações técnicas entre os aficionados da Argentina, do Brasil e do Uruguai, que cresceu muito nos anos seguintes, tornando o estado do Rio Grande do Sul, devido a proximidade com os países vizinhos, um polo do esporte em nosso país.

Com a eclosão da 1ª Guerra Mundial em 1914, a importação de veículos europeus ficou prejudicada, permitindo que os fabricantes dos Estados Unidos colocassem aqui suas máquinas, conquistando o mercado.

autos_americanos_1914_15_16

Em termos de corridas, somente em 1916 um grupo de pilotos resolveu disputar uma prova num percurso entre São Paulo e Ribeirão Preto. Esta prova seguia o molde das longas corridas de rally em estrada que eram bastante comuns na Europa na época do início do esporte.

O período pós primeira guerra mundial, foi marcado no Brasil pela popularização do automobilismo, com a chegada das marcas Norte Americanas implantando suas fábricas locais: a Ford (em 1919) e a General Motors (em 1925).

A “I Exposição de Automobilismo”, foi realizada em 1923, promovida pela Associação Paulista de Estradas de Rodagem, ela foi organizada em menos de um mês, ao contrário dos anos anteriores, quando outras tentativas não obtiveram sucesso.
Expo_I_geral
Em meados da década de 1920, com a simplificação e diminuição dos custos dos automóveis, começou a se popularizar no Rio Grande do Sul, um tipo de competição chamado “Quilômetro Lançado”, onde num trecho inicial de 600 m, os carros ganhavam velocidade; já em velocidade máxima no fim do trecho inicial, o tempo era cronometrado na distância exata de 1 km.
DecadaDe20-05
No final da década de 1920, surge o primeiro ídolo do automobilismo nacional, Norberto Jung, (o “Pintacuda dos Pampas”), que em 1926, a bordo de seu Dodge número 9, vence o primeiro “Quilômetro Lançado de Porto Alegre”, corrido no circuito de Canoas, estabelecendo a marca de 101 km/h de velocidade. Esta prova atraiu verdadeiras multidões para a estrada. No ano seguinte, na segunda edição do “Quilômetro Lançado de Porto Alegre”, Norberto atingiu a velocidade de 139 km/h, um feito para a época.
Norberto_Jung_1926_1927
Em maio de 1927, ocorre a primeira corrida em circuito de rua em Porto Alegre, chamada de “Circuito de Outono”. Para dar dimensão nacional à prova, o promissor piloto carioca, Irineu Corrêa foi convidado. Foram 4 voltas num circuito de 37 km, num total de 148 km. Irineu surpreendeu a todos ficando com a vitória obtendo destaque internacional.
Irineu_Correa
O automobilismo gaúcho, vivia um período de grande euforia, e em 4 de julho de 1928 foi criado o Automóvel Clube de Porto Alegre, para filiar pilotos e organizar eventos.

O êxito da I Exposição de Automobilismo, leva a Associação Paulista de Estradas de Rodagem a programar anualmente, novas exposições, cada vez mais interessantes.

Foram cinco exposições, realizadas nesse período, sendo que a última e maior de todas, ocorreu entre os dias 16 de dezembro de 1927 e 1 de janeiro de 1928, encerrando o ciclo de exposições da década de 20, pois em 1929 não houve a possibilidade de realizar outra exposição, devido à grande crise financeira e, mais tarde a revolução de 1930 no Brasil.

Somente trinta anos depois as exposições renasceriam com o nome de “Salão do Automóvel”.
DecadaDe20-02
Aqui se encerra a revisão desse primeiro período do automobilismo no Brasil, entre 1902 e 1930. Em breve, apresentarei a revisão do período seguinte.

 

Anúncios

Deixe um comentário

Faça o login usando um destes métodos para comentar:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s